Estou no Rio. Vim pra cá por conta de um workshop da Witness.org, uma organização internacional de direitos humanos que tem como foco filmar as violacões desses direitos, documentando, e usando isso como recurso para o trabalho de ativismo.
O workshop reune desde sexta-feira (22/07) até o dia 29/07 representantes de movimentos sociais do Rio de Janeiro, de ONGs, membros das pastorais e moradores de comunidades de baixa renda da cidade. O objetivo é claro: ensinar a essas pessoas como usar ferramentas de vídeo para documentar os despejos e remoções que estão acontecendo na cidade por causa da Copa 2014, e das Olimpíadas em 2016.
Qual minha participação nisso? Eu já conhecia o trabalho da Witness, mas foi somente no mês passado que recebi o convite para participar do workshop aqui no Rio. Conduzirei uma seção na quarta-feira sobre formas de distribuição do conteúdo com o objetivo de tentar traçar alguns caminhos que esses grupos podem seguir para divulgar seus vídeos e alcançar suas audiências/públicos de forma efetiva.
É um desafio bastante grande, e que pode dar frutos bem interessantes. O Rio tem sido alvo de atenção por conta da Copa e das Olimpíadas, mas muito pouco ainda se vê/sabe das famílias que estão sendo despejadas de suas casas/moradias para dar lugar aos empreendimentos dos eventos desportivos. Nas entrelinhas de toda essa festividade e clima de alegria, há muita gente que está sendo mal-tratada, humilhada e tendo todos seus direitos básicos violados de maneira descarada pelas autoridades.
Para além de usar vídeo, o que esse workshop e iniciativas similares demonstram é algo que já tenho visto e falado com algumas pessoas por muito tempo: a necessidade de movimentos sociais e os geeks/nerds/hackers se juntarem, traçando novas estratégias para ação política, ativismo e mudança social. Os movimentos sabem como o jogo político funciona, e são eles que levam porrada quando vão às ruas lutar pelos seus direitos. Os hackers/entusiastas de tecnologia, por sua vez, dominam novas técnicas de mobilização, mas que se ficarem somente na imaginação serão inúteis.
O que proponho é que ambos os grupos enxerguem as possibilidades que cada um tem diante do que o outro sabe, que se juntem, e façam coisas legais para mudança social. Se isso de fato acontecer, aí sim estaremos usando a web e o poder dos movimentos para coisas que fazem sentido. Mas pra isso cada lado dessa moeda precisa ser um pouco mais aberto ao que o outro tem a dizer.
No workshop de hoje eu vi isso: uma vontade imensa dessas pessoas de aprender, e usar o “novo” e “desconhecido” como uma ferramenta para mudar a realidade delas e trazer dignidade de volta aos cidadãos do Rio. Acho que estou começando a ver coisas interessantes surgindo por aí, e não sou de falar mas, parece que quem tá comendo bola somos nós, os geeks/nerds/hackers, que não enxergam esse desejo de mudar o mundo e à realidade à sua volta, ou o valor das ações presenciais e do contato físico.
Aos cariocas. Tava com saudades da cidade de vocês!
