“Os movimentos sociais são como um desfile de escola de samba”

Foi assim que uma das senhoras que participava do workshop da Witness definiu os movimentos sociais. Para ela, cada movimento é como uma ala de um desfile de escola de samba, com suas prioridades e demandas, suas dificuldades, suas fraquezas e suas vozes, como se fossem diferentes alas. Cada movimento contra remoção tem sua história, mas o que lhes falta é coordenação, objetividade e uma única voz para luta contra a opressão, falta-lhes um enredo.

Ontem foi um dia muito interessante. Tinha passado a noite anterior preparando a apresentação sobre distribuição de conteúdo e mobilização online/offline (vou dar uma melhorada na apresentação e publico aqui!), e quando cheguei para minha sessão, os oficineiros já tinham tido um dia de atividades de edição dos vídeos capturados lá no Canal do Anil. Vi o primeiro corte de cada equipe, que contava cada um a história de uma mulher residente da comunidade.

O propósito pelo qual eu vim ao Rio para esse workshop foi trazer um pouco da minha experiência em comunidades online e ativismo digital, levando noções sobre a cultura hacker e um pouco do que acho que é desobediência civil aplicada à mobilização em rede. Apesar de resistentes e profundamente envolvidos em suas causas, a minha visão é de que os movimentos são influenciados demais por uma política partidária (de esquerda) e utilizam práticas já ultrapassadas (ou não mais tao efetivas assim quando aplicadas isoladamente), e aos poucos se tornando bem ortodoxos.

Foi um pouco com base nisso que eu desenhei minha apresentação, mostrando àquele grupo alguns exemplos de ações publicitárias de marketing de guerrilha interessantes com vídeo, usos do vídeo numa mobilização (para divulgação, sensibilização, etc), e coisas legais a se fazer com Internet e outras tecnologias. Longe de passar pelo viés técnico da coisa toda, o foco foi mais em mostrar como existem táticas que podem ser usadas com essas tecnologias para causar impacto.

Alguns movimentos reconhecem a necessidade de aprendizado. No workshop, o que motivava aquelas pessoas era a troca de experiências e a vontade de absorver conhecimento. Eles se debruçaram diante de novas práticas e de novas mídias, e voltando um pouco para o meu texto anterior, é uma realidade dizer que eles estão cada vez mais conectados com o mundo, em vários níveis e formas. O que a dona Jane, a senhora que soltou a frase que dá título a esse post quando começava sua fala na discussão que tivemos ontem, foi bastante perspicaz ao dizer é que cada movimento está em uma fase, e usando o exemplo de sua própria comunidade, ela se considera a mais preparada para aprender as coisas que estavam sendo ditas ali. Eu volto a falar da dona Jane mais adiante no texto.

Ao mesmo tempo, quando eu falei pro grupo que eu tenho visto muito mais ação dos movimentos sociais em direção ao aprendizado de novas tecnologias do que o contrário (as comunidades hackers e de “cultura digital” parecem que não se tocaram ainda para a urgência das demandas dos movimentos), eu ouvi de alguns deles o reconhecimento de que essa resposta do outro lado é inexistente, havendo até algumas tentativas de identificar a razão por trás do problema. Muitos afirmaram que o desinteresse pela cultura dos movimentos sociais se dá justamente pelo fato de que os movimentos são estruturas antigas, e o modo como se faz política nesse meio é enfadonho, chato, e difícil para as “novas gerações”.

Ainda é uma realidade entre os movimentos sociais a estrutura de um falar para todos, de dizer que o movimento sabe o que é melhor para cada um, e a personificação das figuras de liderança do movimento, o que leva a construção do orgulho individual de alguns dos seus líderes. Não vou dizer que o mesmo não acontece na cultura digital, mas em grau muitíssimo menor, respingo e influência talvez dos indivíduos que transitam entre os grupos, e parte de uma cultura maior do que é movimento, população, e política no Brasil. O que acontece é que na cultura de rede e na formação de comunidades online, a proposta de descentralização do movimento é o elemento-chave de sua existência. Não há princípios que regem o grupo, não há certezas absolutas, há apenas o convite à multiplicidade e diversidade de ideias e opiniões, por mais contrárias que sejam.

Em contrapartida, eu imagino se não seria interessante que grupos como a Transparência Hacker se enxergassem como movimento social? Poderia listar todos os benefícios que isso traria para o grupo como um todo. Será que essa não seria uma técnica para alcançar os grupos de movimentos sociais que promovem um trabalho de justiça social, mas que por conta da estrutura são espaços bastante difíceis de se inserir? Será que se a THacker se enxergasse enquanto um movimento social não haveria mais abertura de outros grupos para a nossa causa?

Durante minha apresentação, um dos pontos que abordei foi sobre a relação do movimento social com outros espaços. Como é importante ocupar as redes, as rádios, a mídia, e os grupos de discussão já existentes. A resposta do Júlio, professor de História que somente há pouco tempo começou a se envolver com o movimento social de combate às remoções forçadas no Rio de Janeiro, foi a confirmação dessa necessidade. Para ele, o que está acontecendo no Rio é que os movimentos e comunidades não conversam, não se articulam, e não conseguem atingir outros grupos. Toda a luta de moradia e direitos humanos em relação aos despejos está resumida ali, nas comunidades que não têm estrutura, recursos, tecnologias, poder, ou voz.

Para se ganhar essa luta, e conseguir moradia digna, Júlio foi incisivo e emocionado ao dizer como essas comunidades precisam usar a Internet para passar sua mensagem. Longe de suas críticas à qualidade de uso da Internet e redes sociais atualmente, o que ficou muito claro é que, mesmo desempoderadas, muitas dessas pessoas não estão alienadas a ponto de não perceberem que o que sofrem é doloroso, e mesmo os que não têm noção do seu direito e das possibilidades de ação, reconhecem a injustiça que é viver nas condições em que vivem.

Voltando pra história da dona Jane, a senhora de movimento por quem me apaixonei, e que me dá forças a sustentar minha opinião de que devemos parar de tratar os pobres como coitados (ela foi uma das pessoas com o discurso sobre movimentos sociais mais bem articulado que eu já vi na vida, e não precisou de títulos para isso), queria contar um pouco da história que ela me passou, e de como faz sentido nessas horas o peso da palavra “empoderar”, ou seja, como essa não é simplesmente uma palavra bonita pra colocar em relatórios para os financiadores de seu projeto de desenvolvimento/participação política.

A dona Jane estava envolvida na organização de um ato que vai acontecer nesse sábado no Rio por conta do sorteio que definirá onde acontecerão as semi-finais da Copa. Em sua comunidade, muitas pessoas queriam ir, e foi sugerido que um ônibus levasse essas pessoas. Ela relata o quão confusa foi essa articulação, pois ninguém sabia o horário de saída e retorno do ônibus, afetando consecutivamente na quantidade de pessoas que participariam do ato. Nesse ponto o argumento dela foi sobre a falta de articulação, e aponta a necessidade de figuras centrais que levem adiante as mobilizações da comunidade e de movimentos sociais.

Dona Jane conta como em outra ocasião ela teve de informar as pessoas de sua comunidade a respeito de um item importante para uma mobilização, e como usou o telefone de sua casa para isso. Ao final do mês, uma conta de R$600 reais, pagas com dinheiro de seu bolso, e não-restando um centavo sequer do seu salário mensal. Porque fazer isso? Ela não queria deixar as pessoas desinformadas. O movimento não pagou pela sua conta, e a atitude de tirar de seu próprio bolso se resumiu a uma razão apenas segundo a senhora: “Se eu não pagar o telefone fico sem Internet, e daí fico incomunicável”. Percebem agora que quando falamos de empoderamento essas coisas têm de estar contempladas?

Tenho certeza de que a história da dona Jane e as opiniões do Júlio e de muitos outros oficineiros se repetem por esse Brasil enorme e injusto. O que nós que trabalhamos com comunidades online e temos os nossos direitos humanos garantidos, não passamos fome, temos casas confortáveis e influência temos que fazer? O passo inicial tem de ser de pensar o peso das nossas ações, o que podemos fazer para causar um impacto político com as ferramentas e recursos que temos (e avaliar o peso das ações atuais), e começar a fazer coisas que empoderem essas comunidades, que conversem com esses grupos e movimentos, e isso demanda abertura e uma posição de humildade que muitas vezes não temos, mesmo que involuntariamente.

Eles estão conectados com o mundo, mas o resto do mundo não está conectado com eles.

O título desse post ilustra muito bem a impressão que eu tive hoje quando visitei a comunidade do Canal do Anil na zona oeste do Rio de Janeiro. Fui acompanhar o grupo de oficineiros da Witness em uma atividade prática, em que eles foram pedidos que documentassem em vídeo as histórias de cinco moradores do Canal.

A grande verdade é que tudo aquilo me chocou mais ainda, mesmo eu já sabendo do quão humilhante é a condição das comunidades e favelas do Rio e do Brasil em geral. Eu já vi pessoas em condição de miséria e extrema pobreza em Salvador, quando andei por cima de palafitas na maré do bairro de Alagados, mas isso já faz tempo. Hoje eu vi uma cena de extrema degradação e violação de direitos humanos básicos, crianças correndo em ambientes junto com animais de roça e excrementos, um rio que mais parecia um esgoto, casas de madeira e pau, chão de terra e entulhos e lixos por todos os cantos.

O que difere da situação que eu vi quando era bem mais jovem lá em Salvador foi somente uma coisa: aqui a vista da comunidade do Canal do Anil é a Barra da Tijuca de um lado, e os prédios da Vila Pan-americana do outro. Como se não bastasse a situação de extrema pobreza e degradação que eles vivem, ainda têm como skyline os prédios luxuosos onde vivem os artistas, os ricos e outras celebridades.

Mas isso vai muito além. Muito além mesmo. O que eu pude perceber é que nem sempre essas pessoas se dão conta da extremidade em que vivem. Algumas reconhecem aquele lugar como suas casas, seus lares, e daí o conflito existe quando se fala em remoções forçadas. Não adianta as autoridades passarem por cima dessas pessoas sem que haja danos gravíssimos à dignididade da pessoa.

Uma das histórias que eu ouvi hoje foi da Dona Giorgete, mulher, umbandista e negra, que articula suas opiniões de maneira tão clara e emocional que é preciso ser muito estúpido pra não perceber a gravidade das remoções. Ela contou sobre como em 2007 o governo do Rio quis tirar os moradores da comunidade de lá, para dar espaço à vila olímpica dos jogos pan-americanos. Eles resistiram e continuam lá, mas há outra ameaça: a expansão dos condomínios de luxo da Barra da Tijuca. E pode apostar que vão querer removê-los mais uma vez.

Enquanto acompanhava os grupos que coletavam o material de vídeo, comentava com a Priscila Néri (da Witness.org) sobre como esses vídeos que eles criarão podem ser poderosos e impactantes pra uma campanha sobre os despejos. A experiência de captar entrevistas em vídeo é muito interessante, pois além dos depoimentos, é possível mostrar a vida e o dia-a-dia da pessoa, do sujeito entrevistado. Além de compor a dramatização do vídeo, isso acaba por trazer para a audiência um pouco mais sobre quem é aquela pessoa afinal, o que ela faz, e porque não somos tão diferentes assim!

Nesse tocante, tem algumas coisas muito interessantes que eu percebi e comentei com algumas pessoas. A primeira de todas é perceber o quanto essas pessoas estão conectadas com o mundo. Embora a condição seja de miséria e humilhação, elas têm celulares, elas sabem do que acontece do mundo, e até um garotinho da comunidade chegou pra gente e contou até 20 em inglês, sem falar das outras frases que ele sabia falar pra comunicar com os estrangeiros que compunham o grupo. Fora isso, os nomes de negócios, empresas, cartazes, as músicas que eles ouvem no rádio, tudo remete ao mundo lá fora, à globalização, ao estrangeiro, à uma aldeia global (independente se isso seja bom ou ruim).

Um dos senhores com quem conversei, que mora no Canal do Anil há mais de 20 anos, me contou como via pela Internet as informações sobre despejos, notícias, e tudo mais: “A velocidade da internet não é boa, mas dá pra ver”, disse ele. E isso, meus caros, é genial! Eu acho genial pelo menos. E nem preciso mencionar que um dos membros do grupo comentou que ia postar as fotos que eles tiraram hoje no álbum do Orkut dele. Isso a gente já sabe que acontece mesmo, apesar de toda a classe média dizer que essa rede social já morreu. Humpf…

Ao mesmo tempo, e aqui vai um parêntesis de uma história que quero discutir mais detalhadamente depois, fico curioso a respeito de como algumas pessoas dessas comunidades e de outras comunidades do Rio e do Brasil afora lidam com minha figura, ali, junto com outros oficineiros (e essa interpretação na verdade veio dos oficineiros também), mas também junto dos “gringos” e deslocado da realidade deles. Já explico:

Mais uma vez me perguntaram se eu era brasileiro, ou se eu morava nos Estados Unidos, pois segundo algumas pessoas eu “falo que nem gringo”. OK, todo mundo sabe que eu sou no mínimo estranho, alguns me acham metido, e outros me acham um fake-baiano, mas fora do meu círculo de amigos, quando uma pessoa faz essa interpretação sobre mim eu fico sem jeito, sem saber o que falar, e refletindo sobre porque eles acham que eu não poderia estar naquele contexto?

Porque eu, que vim de Salvador, de um contexto que não é de riqueza nem de classe média, muito pelo contrário, não posso ser um jovem bem-sucedido e respeitado profissionalmente? Porque eu precisaria ser “meio-gringo” pra isso? Essa é só uma provocação porque eu acho que vou chegar numa discussão mais longa a respeito de como eu avalio a opinião das pessoas sobre meu jeito gringo de ser.

Enfim, resumindo tudo, e pra não tornar o texto grande demais: eu acho que temos de parar de pensar que os pobres são coitados, ao mesmo tempo em que temos de lutar pela dignidade e os direitos humanos e dar a todos ferramentas para essa luta. O jeito como as vítimas de remoções, e tantos outros casos de violações de direitos humanos que acontecem no dia-a-dia, são tratadas é ridiculamente canalha, e ser negligente diante disso é simplesmente inaceitável.

Acho que tá na hora da gente parar pra refletir sobre o que é realmente ser humano, e ver o que podemos fazer pra mudar o mundo. Hoje eu aprendi mais sobre essas vidas, e mesmo que eu não consiga mudar o mundo sozinho, elas me motivaram a nunca desistir de tentar mudá-lo.

No Rio, falando de video-ativismo…

Estou no Rio. Vim pra cá por conta de um workshop da Witness.org, uma organização internacional de direitos humanos que tem como foco filmar as violacões desses direitos, documentando, e usando isso como recurso para o trabalho de ativismo.

O workshop reune desde sexta-feira (22/07) até o dia 29/07 representantes de movimentos sociais do Rio de Janeiro, de ONGs, membros das pastorais e moradores de comunidades de baixa renda da cidade. O objetivo é claro: ensinar a essas pessoas como usar ferramentas de vídeo para documentar os despejos e remoções que estão acontecendo na cidade por causa da Copa 2014, e das Olimpíadas em 2016.

Qual minha participação nisso? Eu já conhecia o trabalho da Witness, mas foi somente no mês passado que recebi o convite para participar do workshop aqui no Rio. Conduzirei uma seção na quarta-feira sobre formas de distribuição do conteúdo com o objetivo de tentar traçar alguns caminhos que esses grupos podem seguir para divulgar seus vídeos e alcançar suas audiências/públicos de forma efetiva.

É um desafio bastante grande, e que pode dar frutos bem interessantes. O Rio tem sido alvo de atenção por conta da Copa e das Olimpíadas, mas muito pouco ainda se vê/sabe das famílias que estão sendo despejadas de suas casas/moradias para dar lugar aos empreendimentos dos eventos desportivos. Nas entrelinhas de toda essa festividade e clima de alegria, há muita gente que está sendo mal-tratada, humilhada e tendo todos seus direitos básicos violados de maneira descarada pelas autoridades.

Para além de usar vídeo, o que esse workshop e iniciativas similares demonstram é algo que já tenho visto e falado com algumas pessoas por muito tempo: a necessidade de movimentos sociais e os geeks/nerds/hackers se juntarem, traçando novas estratégias para ação política, ativismo e mudança social. Os movimentos sabem como o jogo político funciona, e são eles que levam porrada quando vão às ruas lutar pelos seus direitos. Os hackers/entusiastas de tecnologia, por sua vez, dominam novas técnicas de mobilização, mas que se ficarem somente na imaginação serão inúteis.

O que proponho é que ambos os grupos enxerguem as possibilidades que cada um tem diante do que o outro sabe, que se juntem, e façam coisas legais para mudança social. Se isso de fato acontecer, aí sim estaremos usando a web e o poder dos movimentos para coisas que fazem sentido. Mas pra isso cada lado dessa moeda precisa ser um pouco mais aberto ao que o outro tem a dizer.

No workshop de hoje eu vi isso: uma vontade imensa dessas pessoas de aprender, e usar o “novo” e “desconhecido” como uma ferramenta para mudar a realidade delas e trazer dignidade de volta aos cidadãos do Rio. Acho que estou começando a ver coisas interessantes surgindo por aí, e não sou de falar mas, parece que quem tá comendo bola somos nós, os geeks/nerds/hackers, que não enxergam esse desejo de mudar o mundo e à realidade à sua volta, ou o valor das ações presenciais e do contato físico.

Aos cariocas. Tava com saudades da cidade de vocês! :)