E no aniversário de São Paulo… sobre sentimentos e legitimidade

E no aniversário de São Paulo…

Será mesmo que não existe amor em SP? Será que isso é um mal das grandes cidades? Tenho refletido bastante sobre como as relações entre pessoas se dão por aqui, e pelo mundo em geral. O quanto essa dinâmica enlouquecida dos grandes centros urbanos têm nos feito um mal na alma, não pela velocidade em si, mas porque acabamos por nos tornarmos menos atentos para nós mesmos, e embarcarmos na onda do protocolo de (boas) maneiras da sociedade.

Certa vez eu escrevi em outro blog meu sobre ter “me encontrado em São Paulo.” Essa cidade agora faz parte da minha vida. Meus amigos estão aqui, minha vida se deslocou para cá. Mas daí eu fiquei pensando o quanto é louco o sentimento da “descoberta de si”, e como isso pode se desdobrar até que percebemos nossas qualidades e defeitos, ou, na verdade, até nos darmos conta de que esses sentimentos já estavam ali há muito tempo e por qualquer motivo aleatório não vimos antes.

Eu acho que a vida na grande cidade pode ser um “trigger” disso tudo… afinal, por aqui acabamos criando uma proteção, e nos armando com “coisas” para nos manter longe do meio externo e conseguir assim transitar na cidade. E isso pode se dar de várias formas: ignorando o gari, passando por cima do morador de rua no meio da Avenida Paulista, esbarrando nas pessoas sem pedir desculpas e continuar caminhando, e jogando a fumaça de cigarro na cara do pedinte ou do menino de rua que está ao seu lado em algum restaurante bacanérrimo no centro sem se importar. No final das contas, essas proteções nos tornam menos sensíveis à existência humana do outro, e pra mim isso é bem perverso.

Numa cidade de mais de 10 milhões de pessoas, onde todos estão sempre atrasados, porque perder 5 segundos do seu tempo para pedir desculpas? Acho que esse deve ser o pensamento que passa pela cabeça das pessoas. E eis que surge minha indagação: qual o motivo para tanta defesa? Será que é difícil ser ingênuo, aberto e feliz com os outros? Respeitar o outro? Amar o outro? Porque será que as pessoas simplesmente não amam a pessoa ao seu lado enlouquecidamente? Por que não ser 80, em vez de 8? E ao mesmo tempo, (e daí vem experiência própria) estar na cidade te faz viver esse dilema e imitar algumas dessas mesmas atitudes de individualidade, de solidão, pois parece que é assim que tem de ser.

Estou cansado das pessoas fazerem tipo, de se conterem em prol de evitar os olhares alheios. Disseram que as ruas foram feitas para dançar, e pra mim assim é a espera do sinal de trânsito fechar, a caminhada de volta pra casa, e qualquer situação complementada por um iPod. Não sei porque as pessoas continuam cheias de defesas e armas, e seguem esse princípio religiosamente. Parece que do dia pra noite o mundo virou e as pessoas deixaram de achar a ingenuidade algo bom, ou que sair correndo pra abraçar seu amigo na rua é vexame, ou mesmo que se apaixonar loucamente por outra pessoa é algo que não se deve fazer: porque será que em uma cidade que “vai rápido demais” temos de desacelerar nossos sentimentos? Não entendo.

Precisamos ser mais legítimos consigo mesmos. Esse talvez seja o caminho pra parar com essa história de que “não existe amor em SP”. Mas esse sou somente eu falando de coisas que pouco sei, só as sinto.

One thought on “E no aniversário de São Paulo… sobre sentimentos e legitimidade

  1. DIego, falou tudo!

    São Paulo é uma cidade linda, extremamente dinâmica e lotada de pessoas – as criaturas mais lindas que já foram inventadas. Um esforcinho e essa história de isolamento acaba. São Paulo é fera. E nela existem pessoas lindas. É so se esforçar (e por isso que precisa de mais e mais “estrangeiros” quebradores de paradigmas) =D

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