Eles estão conectados com o mundo, mas o resto do mundo não está conectado com eles.

O título desse post ilustra muito bem a impressão que eu tive hoje quando visitei a comunidade do Canal do Anil na zona oeste do Rio de Janeiro. Fui acompanhar o grupo de oficineiros da Witness em uma atividade prática, em que eles foram pedidos que documentassem em vídeo as histórias de cinco moradores do Canal.

A grande verdade é que tudo aquilo me chocou mais ainda, mesmo eu já sabendo do quão humilhante é a condição das comunidades e favelas do Rio e do Brasil em geral. Eu já vi pessoas em condição de miséria e extrema pobreza em Salvador, quando andei por cima de palafitas na maré do bairro de Alagados, mas isso já faz tempo. Hoje eu vi uma cena de extrema degradação e violação de direitos humanos básicos, crianças correndo em ambientes junto com animais de roça e excrementos, um rio que mais parecia um esgoto, casas de madeira e pau, chão de terra e entulhos e lixos por todos os cantos.

O que difere da situação que eu vi quando era bem mais jovem lá em Salvador foi somente uma coisa: aqui a vista da comunidade do Canal do Anil é a Barra da Tijuca de um lado, e os prédios da Vila Pan-americana do outro. Como se não bastasse a situação de extrema pobreza e degradação que eles vivem, ainda têm como skyline os prédios luxuosos onde vivem os artistas, os ricos e outras celebridades.

Mas isso vai muito além. Muito além mesmo. O que eu pude perceber é que nem sempre essas pessoas se dão conta da extremidade em que vivem. Algumas reconhecem aquele lugar como suas casas, seus lares, e daí o conflito existe quando se fala em remoções forçadas. Não adianta as autoridades passarem por cima dessas pessoas sem que haja danos gravíssimos à dignididade da pessoa.

Uma das histórias que eu ouvi hoje foi da Dona Giorgete, mulher, umbandista e negra, que articula suas opiniões de maneira tão clara e emocional que é preciso ser muito estúpido pra não perceber a gravidade das remoções. Ela contou sobre como em 2007 o governo do Rio quis tirar os moradores da comunidade de lá, para dar espaço à vila olímpica dos jogos pan-americanos. Eles resistiram e continuam lá, mas há outra ameaça: a expansão dos condomínios de luxo da Barra da Tijuca. E pode apostar que vão querer removê-los mais uma vez.

Enquanto acompanhava os grupos que coletavam o material de vídeo, comentava com a Priscila Néri (da Witness.org) sobre como esses vídeos que eles criarão podem ser poderosos e impactantes pra uma campanha sobre os despejos. A experiência de captar entrevistas em vídeo é muito interessante, pois além dos depoimentos, é possível mostrar a vida e o dia-a-dia da pessoa, do sujeito entrevistado. Além de compor a dramatização do vídeo, isso acaba por trazer para a audiência um pouco mais sobre quem é aquela pessoa afinal, o que ela faz, e porque não somos tão diferentes assim!

Nesse tocante, tem algumas coisas muito interessantes que eu percebi e comentei com algumas pessoas. A primeira de todas é perceber o quanto essas pessoas estão conectadas com o mundo. Embora a condição seja de miséria e humilhação, elas têm celulares, elas sabem do que acontece do mundo, e até um garotinho da comunidade chegou pra gente e contou até 20 em inglês, sem falar das outras frases que ele sabia falar pra comunicar com os estrangeiros que compunham o grupo. Fora isso, os nomes de negócios, empresas, cartazes, as músicas que eles ouvem no rádio, tudo remete ao mundo lá fora, à globalização, ao estrangeiro, à uma aldeia global (independente se isso seja bom ou ruim).

Um dos senhores com quem conversei, que mora no Canal do Anil há mais de 20 anos, me contou como via pela Internet as informações sobre despejos, notícias, e tudo mais: “A velocidade da internet não é boa, mas dá pra ver”, disse ele. E isso, meus caros, é genial! Eu acho genial pelo menos. E nem preciso mencionar que um dos membros do grupo comentou que ia postar as fotos que eles tiraram hoje no álbum do Orkut dele. Isso a gente já sabe que acontece mesmo, apesar de toda a classe média dizer que essa rede social já morreu. Humpf…

Ao mesmo tempo, e aqui vai um parêntesis de uma história que quero discutir mais detalhadamente depois, fico curioso a respeito de como algumas pessoas dessas comunidades e de outras comunidades do Rio e do Brasil afora lidam com minha figura, ali, junto com outros oficineiros (e essa interpretação na verdade veio dos oficineiros também), mas também junto dos “gringos” e deslocado da realidade deles. Já explico:

Mais uma vez me perguntaram se eu era brasileiro, ou se eu morava nos Estados Unidos, pois segundo algumas pessoas eu “falo que nem gringo”. OK, todo mundo sabe que eu sou no mínimo estranho, alguns me acham metido, e outros me acham um fake-baiano, mas fora do meu círculo de amigos, quando uma pessoa faz essa interpretação sobre mim eu fico sem jeito, sem saber o que falar, e refletindo sobre porque eles acham que eu não poderia estar naquele contexto?

Porque eu, que vim de Salvador, de um contexto que não é de riqueza nem de classe média, muito pelo contrário, não posso ser um jovem bem-sucedido e respeitado profissionalmente? Porque eu precisaria ser “meio-gringo” pra isso? Essa é só uma provocação porque eu acho que vou chegar numa discussão mais longa a respeito de como eu avalio a opinião das pessoas sobre meu jeito gringo de ser.

Enfim, resumindo tudo, e pra não tornar o texto grande demais: eu acho que temos de parar de pensar que os pobres são coitados, ao mesmo tempo em que temos de lutar pela dignidade e os direitos humanos e dar a todos ferramentas para essa luta. O jeito como as vítimas de remoções, e tantos outros casos de violações de direitos humanos que acontecem no dia-a-dia, são tratadas é ridiculamente canalha, e ser negligente diante disso é simplesmente inaceitável.

Acho que tá na hora da gente parar pra refletir sobre o que é realmente ser humano, e ver o que podemos fazer pra mudar o mundo. Hoje eu aprendi mais sobre essas vidas, e mesmo que eu não consiga mudar o mundo sozinho, elas me motivaram a nunca desistir de tentar mudá-lo.

5 thoughts on “Eles estão conectados com o mundo, mas o resto do mundo não está conectado com eles.

  1. diego ~ foi muito bom tê-lo hoje conosco e obrigada por colocar o foco no absurdo dessas remoções. compartilho da sua indignação, principalmente ao ver os bilhões e bilhões de reais que estão sendo investidos para o país se preparar para a copa e olimpíadas, “motivo de grande orgulho nacional”…. eu ficaria muito, mais muito mais orgulhosa do meu país se esses bilhões fossem investidos em escolas, hospitais, professores, moradia digna…. isso sim seria um grande orgulho nacional. me inspiro na força dos moradores dessas comunidades e me somo a eles pra ecoar o grito exigindo o fim das remoções. a luta continua! beijos, priscila

  2. Show de bola Casaes!!! É disso que eu estava falando em meu último comentário (no texto anterior)!

    Acho que é essa imersão (por mais rápida que tenha sido), esse choque de realidade que as pessoas do mundo “nerd/geek” precisam!

    Precisamos sair da zona de conforto urgentemente!

    Muito me incomodam discussões sobre se o “Ministro X” é corrupto ou não, se devemos ou não conversar com ele e tentar articular algo.

    P***a, o cara é um ministro, ocupa um cargo público e deve estar à serviço da sociedade, para o bem da sociedade. Se é corrupto, denunciemos e derrubemos. Se não é corrupto mas não está fazendo seu trabalho direito, cobremos para que o faça. Esse é o nosso DEVER!

    É ridículo imaginar que algo Concreto e Permanente, que algo Estrutural e Perene será feito sem passar pelas instituições públicas.

    Temos que tomar conhecimento, de fato, dessas realidades e não nos mantermos na posição cômoda de criticar com “o colega do lado”, de só “mandar um email”. Temos que participar ativamente da vida Política (seja indo em manifestações, seja participando efetivamente do processo Político – tanto eleitoral como pós-eleitoral).

    Enfim… Força para nossa luta!! Ainda conseguiremos fazer o ThackMoradia dar frutos!

  3. Ei Casaes. Muito cabuloso o post. Esse é o tema de tantas discussões por aqui, que vc nao faz idéia…

  4. Legal Diego, bom saber que o pessoal tá conectado por ali. Deu pra sacar se o fato de estarem “antenados” tem relação direta com o sucesso da resistência?

  5. Oi Diego, ao longo dos últimos 3 anos, e também fui aprendendo ao lado dum movimento de moradia o impacto de processos macro nas vidas das pessoas. Os processos e as tragédias pessoais que descreves não acontecem à toa. Nas cidades – e é mais visível na cidade brasileira, os políticos, o capital e as grandes construtoras usam seres humanos – famílias e comunidades – para seu jogo de xadrez de especulação imobiliária e incansável procura de lucro. Pode soar moralista, pode soar marxista, quero lá saber. A verdade crua é esta. As pessoas e suas moradias frágeis são peças. Quando ajudam valorizar uma área podem ficar. No momento que já não servem para isso, é despejo. É preciso desmascarar estes interesses disfarçados como cívicos, e como observas, quem melhor do que as pessoas no terreno?

    Fico feliz com os comentários e o grau de interesse nos teus posts no Twitter também. Bjs

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