E no aniversário de São Paulo… sobre sentimentos e legitimidade

E no aniversário de São Paulo…

Será mesmo que não existe amor em SP? Será que isso é um mal das grandes cidades? Tenho refletido bastante sobre como as relações entre pessoas se dão por aqui, e pelo mundo em geral. O quanto essa dinâmica enlouquecida dos grandes centros urbanos têm nos feito um mal na alma, não pela velocidade em si, mas porque acabamos por nos tornarmos menos atentos para nós mesmos, e embarcarmos na onda do protocolo de (boas) maneiras da sociedade.

Certa vez eu escrevi em outro blog meu sobre ter “me encontrado em São Paulo.” Essa cidade agora faz parte da minha vida. Meus amigos estão aqui, minha vida se deslocou para cá. Mas daí eu fiquei pensando o quanto é louco o sentimento da “descoberta de si”, e como isso pode se desdobrar até que percebemos nossas qualidades e defeitos, ou, na verdade, até nos darmos conta de que esses sentimentos já estavam ali há muito tempo e por qualquer motivo aleatório não vimos antes.

Eu acho que a vida na grande cidade pode ser um “trigger” disso tudo… afinal, por aqui acabamos criando uma proteção, e nos armando com “coisas” para nos manter longe do meio externo e conseguir assim transitar na cidade. E isso pode se dar de várias formas: ignorando o gari, passando por cima do morador de rua no meio da Avenida Paulista, esbarrando nas pessoas sem pedir desculpas e continuar caminhando, e jogando a fumaça de cigarro na cara do pedinte ou do menino de rua que está ao seu lado em algum restaurante bacanérrimo no centro sem se importar. No final das contas, essas proteções nos tornam menos sensíveis à existência humana do outro, e pra mim isso é bem perverso.

Numa cidade de mais de 10 milhões de pessoas, onde todos estão sempre atrasados, porque perder 5 segundos do seu tempo para pedir desculpas? Acho que esse deve ser o pensamento que passa pela cabeça das pessoas. E eis que surge minha indagação: qual o motivo para tanta defesa? Será que é difícil ser ingênuo, aberto e feliz com os outros? Respeitar o outro? Amar o outro? Porque será que as pessoas simplesmente não amam a pessoa ao seu lado enlouquecidamente? Por que não ser 80, em vez de 8? E ao mesmo tempo, (e daí vem experiência própria) estar na cidade te faz viver esse dilema e imitar algumas dessas mesmas atitudes de individualidade, de solidão, pois parece que é assim que tem de ser.

Estou cansado das pessoas fazerem tipo, de se conterem em prol de evitar os olhares alheios. Disseram que as ruas foram feitas para dançar, e pra mim assim é a espera do sinal de trânsito fechar, a caminhada de volta pra casa, e qualquer situação complementada por um iPod. Não sei porque as pessoas continuam cheias de defesas e armas, e seguem esse princípio religiosamente. Parece que do dia pra noite o mundo virou e as pessoas deixaram de achar a ingenuidade algo bom, ou que sair correndo pra abraçar seu amigo na rua é vexame, ou mesmo que se apaixonar loucamente por outra pessoa é algo que não se deve fazer: porque será que em uma cidade que “vai rápido demais” temos de desacelerar nossos sentimentos? Não entendo.

Precisamos ser mais legítimos consigo mesmos. Esse talvez seja o caminho pra parar com essa história de que “não existe amor em SP”. Mas esse sou somente eu falando de coisas que pouco sei, só as sinto.

Caro Papa, essa batalha você já perdeu e nem sabe disso!

A Reuters deu uma notícia essa semana dizendo que o Papa Bento XVI tratou a homossexualidade como “uma das ameaças ao próprio futuro da humanidade.” Ele é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, assim como uma corja conservadora que se espalha por aí: tanto no Brasil quanto no resto do mundo. O que o Papa não sabe é que ele já perdeu essa luta. E dentro de sua própria igreja.

Há alguns meses, dei um workshop sobre WordPress para uma turma de jovens da Zona Leste de São Paulo. A idéia era focar não somente nos aspectos técnicos do WordPress, mas como é possível usar uma ferramenta da web para apresentar conteúdo, e como fazer isso de maneira bacana, bem pensada e direcionada. O workshop foi à convite de duas organizações não governamentais brasileiras que trabalham com outra organização internacional vinculada à igreja Católica.

Não preparei nada para a aula, e fui lá na cara e na coragem. Algo dentro de mim dizia que seria a maior burrice do mundo ensinar uma turma com faixa etária média de 15 anos a usar as redes sociais, ou WordPress, ou o que quer que seja. Dito e certo. Cheguei, configurei o projetor, e comecei: 15 minutos depois fizemos o primeiro exercício e montamos um blog juntos. Cada um tinha seu perfil, e a frágil conexão de 1MB não permitia que 25 “alunos” colocassem vídeos do Youtube, fotos em alta resolução e publicassem dezenas de textos ao mesmo tempo. Foi uma experiência bacana.

Mas voltando ao foco do texto, o que mais me surpreendeu não foi a destreza dos jovens. Isso eu já sabia! O que me surpreendeu foi haver cinco alunos naquela sala, todos da periferia de São Paulo, e abertamente homossexuais. E mais, o conteúdo de seus posts era da maior ameaça da humanidade: direitos homossexuais (da bandeira gay à claras demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo). Quando vi aquilo, um sorriso bem leve saiu de meu rosto, e por um momento tirei minha atenção do “assunto” daquele workshop.

O que isso quer dizer? Pra mim, não adianta o Papa vir à público e falar que o casamento gay é uma ameaça. Eu discordo de você, Bento XVI, e muitos dos fiéis de sua igreja também discordam. Eles vivem suas vidas da mesma forma, levando em conta os valores de compaixão e amor ao próximo do Cristianismo sem sustentar preconceitos. E o sr. Papa deveria se lembrar disso também, porque acredite em mim, para essa galerinha jovem suas palavras entraram por um ouvido e saíram pelo outro.

Ao meu pai…

Há quase 9 meses não vejo meu pai. Desde que mudei pra São Paulo, no dia 1 de junho de 2010, só o vi no Natal e Ano Novo. Poucas foram as vezes que falei com ele de lá pra cá, e às vezes fico pensando no péssimo exemplo de filho que sou. Exatamente por isso resolvi escrever esse texto que será meu presente do dia dos pais.

Durante toda a minha vida eu morei com meus pais em Salvador, e sempre tive eles do meu lado. Era meu pai quem me levava na escola quando eu era pequeno, era ele também que participava das reuniões de pais do colégio, e foi ele que me ensinou o caminho de ônibus para o colégio em que fiz o Ensino Médio. Eu lembro também que foi ele que me ensinou a andar de bicicleta quando eu tinha uns 12 anos de idade.

Meu pai é um homem interessante. Simples, viajado, e que gosta de política, incontáveis foram as vezes em que assistindo o jornal a gente parava pra discutir sobre o tema, sempre que ele chegava do trabalho. Além disso, ele é noveleiro, o que nos fazia engatar em vários debates sobre o personagem X ou Y, nos tempos em que eu assistia novelas.

A convivência com meus pais sempre foi muito boa. Eles apoiavam (e ainda apoiam) tudo que faço. Encorajando seu filho mais novo a seguir sempre em frente, tentando sem medo de errar. Quando decidi vir pra São Paulo, a decisão de mudar não demorou muito. Recebi a proposta de emprego em uma semana, e na semana seguinte já estava aqui. E eu ouvi aquilo que sempre ouvi na minha vida: “vai lá, meu filho”.

Dizem que os pais criam os filhos para o mundo, e não para si mesmos. Para mim isso é tão verdadeiro que é quase indescritível, e as palavras não abrigam o sentimento que essa liberdade implica. Sempre fui livre para fazer todas as minhas escolhas, e dos meus pais ouvia os conselhos, as palavras de apoio e a promessa de que tudo no final dá certo, o importante mesmo é tentar e ser aquilo que a gente é. Assim aprendi.

Tudo que quero nessa vida é que minhas ações, e minha trajetória, lhe dêem bastante orgulho, meu pai. E que um dia eu possa olhar pra trás e pensar no grande homem que fez parte de minha vida, que me ensinou a caminhar, e a andar de bicicleta, que me ensinou valores que até hoje me guiam, que sempre acreditou nos meus sonhos e me deu apoio para correr atrás deles, mesmo que um desses sonhos seja o de querer mudar o mundo.

E saiba que você é esse homem meu pai, que me ajudou a se tornar esse que sou agora toda vez que me chama de “campeão”.

Feliz Dia dos Pais, sr. Edvaldo.

De seu filho mais novo,

Diego.

“Os movimentos sociais são como um desfile de escola de samba”

Foi assim que uma das senhoras que participava do workshop da Witness definiu os movimentos sociais. Para ela, cada movimento é como uma ala de um desfile de escola de samba, com suas prioridades e demandas, suas dificuldades, suas fraquezas e suas vozes, como se fossem diferentes alas. Cada movimento contra remoção tem sua história, mas o que lhes falta é coordenação, objetividade e uma única voz para luta contra a opressão, falta-lhes um enredo.

Ontem foi um dia muito interessante. Tinha passado a noite anterior preparando a apresentação sobre distribuição de conteúdo e mobilização online/offline (vou dar uma melhorada na apresentação e publico aqui!), e quando cheguei para minha sessão, os oficineiros já tinham tido um dia de atividades de edição dos vídeos capturados lá no Canal do Anil. Vi o primeiro corte de cada equipe, que contava cada um a história de uma mulher residente da comunidade.

O propósito pelo qual eu vim ao Rio para esse workshop foi trazer um pouco da minha experiência em comunidades online e ativismo digital, levando noções sobre a cultura hacker e um pouco do que acho que é desobediência civil aplicada à mobilização em rede. Apesar de resistentes e profundamente envolvidos em suas causas, a minha visão é de que os movimentos são influenciados demais por uma política partidária (de esquerda) e utilizam práticas já ultrapassadas (ou não mais tao efetivas assim quando aplicadas isoladamente), e aos poucos se tornando bem ortodoxos.

Foi um pouco com base nisso que eu desenhei minha apresentação, mostrando àquele grupo alguns exemplos de ações publicitárias de marketing de guerrilha interessantes com vídeo, usos do vídeo numa mobilização (para divulgação, sensibilização, etc), e coisas legais a se fazer com Internet e outras tecnologias. Longe de passar pelo viés técnico da coisa toda, o foco foi mais em mostrar como existem táticas que podem ser usadas com essas tecnologias para causar impacto.

Alguns movimentos reconhecem a necessidade de aprendizado. No workshop, o que motivava aquelas pessoas era a troca de experiências e a vontade de absorver conhecimento. Eles se debruçaram diante de novas práticas e de novas mídias, e voltando um pouco para o meu texto anterior, é uma realidade dizer que eles estão cada vez mais conectados com o mundo, em vários níveis e formas. O que a dona Jane, a senhora que soltou a frase que dá título a esse post quando começava sua fala na discussão que tivemos ontem, foi bastante perspicaz ao dizer é que cada movimento está em uma fase, e usando o exemplo de sua própria comunidade, ela se considera a mais preparada para aprender as coisas que estavam sendo ditas ali. Eu volto a falar da dona Jane mais adiante no texto.

Ao mesmo tempo, quando eu falei pro grupo que eu tenho visto muito mais ação dos movimentos sociais em direção ao aprendizado de novas tecnologias do que o contrário (as comunidades hackers e de “cultura digital” parecem que não se tocaram ainda para a urgência das demandas dos movimentos), eu ouvi de alguns deles o reconhecimento de que essa resposta do outro lado é inexistente, havendo até algumas tentativas de identificar a razão por trás do problema. Muitos afirmaram que o desinteresse pela cultura dos movimentos sociais se dá justamente pelo fato de que os movimentos são estruturas antigas, e o modo como se faz política nesse meio é enfadonho, chato, e difícil para as “novas gerações”.

Ainda é uma realidade entre os movimentos sociais a estrutura de um falar para todos, de dizer que o movimento sabe o que é melhor para cada um, e a personificação das figuras de liderança do movimento, o que leva a construção do orgulho individual de alguns dos seus líderes. Não vou dizer que o mesmo não acontece na cultura digital, mas em grau muitíssimo menor, respingo e influência talvez dos indivíduos que transitam entre os grupos, e parte de uma cultura maior do que é movimento, população, e política no Brasil. O que acontece é que na cultura de rede e na formação de comunidades online, a proposta de descentralização do movimento é o elemento-chave de sua existência. Não há princípios que regem o grupo, não há certezas absolutas, há apenas o convite à multiplicidade e diversidade de ideias e opiniões, por mais contrárias que sejam.

Em contrapartida, eu imagino se não seria interessante que grupos como a Transparência Hacker se enxergassem como movimento social? Poderia listar todos os benefícios que isso traria para o grupo como um todo. Será que essa não seria uma técnica para alcançar os grupos de movimentos sociais que promovem um trabalho de justiça social, mas que por conta da estrutura são espaços bastante difíceis de se inserir? Será que se a THacker se enxergasse enquanto um movimento social não haveria mais abertura de outros grupos para a nossa causa?

Durante minha apresentação, um dos pontos que abordei foi sobre a relação do movimento social com outros espaços. Como é importante ocupar as redes, as rádios, a mídia, e os grupos de discussão já existentes. A resposta do Júlio, professor de História que somente há pouco tempo começou a se envolver com o movimento social de combate às remoções forçadas no Rio de Janeiro, foi a confirmação dessa necessidade. Para ele, o que está acontecendo no Rio é que os movimentos e comunidades não conversam, não se articulam, e não conseguem atingir outros grupos. Toda a luta de moradia e direitos humanos em relação aos despejos está resumida ali, nas comunidades que não têm estrutura, recursos, tecnologias, poder, ou voz.

Para se ganhar essa luta, e conseguir moradia digna, Júlio foi incisivo e emocionado ao dizer como essas comunidades precisam usar a Internet para passar sua mensagem. Longe de suas críticas à qualidade de uso da Internet e redes sociais atualmente, o que ficou muito claro é que, mesmo desempoderadas, muitas dessas pessoas não estão alienadas a ponto de não perceberem que o que sofrem é doloroso, e mesmo os que não têm noção do seu direito e das possibilidades de ação, reconhecem a injustiça que é viver nas condições em que vivem.

Voltando pra história da dona Jane, a senhora de movimento por quem me apaixonei, e que me dá forças a sustentar minha opinião de que devemos parar de tratar os pobres como coitados (ela foi uma das pessoas com o discurso sobre movimentos sociais mais bem articulado que eu já vi na vida, e não precisou de títulos para isso), queria contar um pouco da história que ela me passou, e de como faz sentido nessas horas o peso da palavra “empoderar”, ou seja, como essa não é simplesmente uma palavra bonita pra colocar em relatórios para os financiadores de seu projeto de desenvolvimento/participação política.

A dona Jane estava envolvida na organização de um ato que vai acontecer nesse sábado no Rio por conta do sorteio que definirá onde acontecerão as semi-finais da Copa. Em sua comunidade, muitas pessoas queriam ir, e foi sugerido que um ônibus levasse essas pessoas. Ela relata o quão confusa foi essa articulação, pois ninguém sabia o horário de saída e retorno do ônibus, afetando consecutivamente na quantidade de pessoas que participariam do ato. Nesse ponto o argumento dela foi sobre a falta de articulação, e aponta a necessidade de figuras centrais que levem adiante as mobilizações da comunidade e de movimentos sociais.

Dona Jane conta como em outra ocasião ela teve de informar as pessoas de sua comunidade a respeito de um item importante para uma mobilização, e como usou o telefone de sua casa para isso. Ao final do mês, uma conta de R$600 reais, pagas com dinheiro de seu bolso, e não-restando um centavo sequer do seu salário mensal. Porque fazer isso? Ela não queria deixar as pessoas desinformadas. O movimento não pagou pela sua conta, e a atitude de tirar de seu próprio bolso se resumiu a uma razão apenas segundo a senhora: “Se eu não pagar o telefone fico sem Internet, e daí fico incomunicável”. Percebem agora que quando falamos de empoderamento essas coisas têm de estar contempladas?

Tenho certeza de que a história da dona Jane e as opiniões do Júlio e de muitos outros oficineiros se repetem por esse Brasil enorme e injusto. O que nós que trabalhamos com comunidades online e temos os nossos direitos humanos garantidos, não passamos fome, temos casas confortáveis e influência temos que fazer? O passo inicial tem de ser de pensar o peso das nossas ações, o que podemos fazer para causar um impacto político com as ferramentas e recursos que temos (e avaliar o peso das ações atuais), e começar a fazer coisas que empoderem essas comunidades, que conversem com esses grupos e movimentos, e isso demanda abertura e uma posição de humildade que muitas vezes não temos, mesmo que involuntariamente.

Eles estão conectados com o mundo, mas o resto do mundo não está conectado com eles.

O título desse post ilustra muito bem a impressão que eu tive hoje quando visitei a comunidade do Canal do Anil na zona oeste do Rio de Janeiro. Fui acompanhar o grupo de oficineiros da Witness em uma atividade prática, em que eles foram pedidos que documentassem em vídeo as histórias de cinco moradores do Canal.

A grande verdade é que tudo aquilo me chocou mais ainda, mesmo eu já sabendo do quão humilhante é a condição das comunidades e favelas do Rio e do Brasil em geral. Eu já vi pessoas em condição de miséria e extrema pobreza em Salvador, quando andei por cima de palafitas na maré do bairro de Alagados, mas isso já faz tempo. Hoje eu vi uma cena de extrema degradação e violação de direitos humanos básicos, crianças correndo em ambientes junto com animais de roça e excrementos, um rio que mais parecia um esgoto, casas de madeira e pau, chão de terra e entulhos e lixos por todos os cantos.

O que difere da situação que eu vi quando era bem mais jovem lá em Salvador foi somente uma coisa: aqui a vista da comunidade do Canal do Anil é a Barra da Tijuca de um lado, e os prédios da Vila Pan-americana do outro. Como se não bastasse a situação de extrema pobreza e degradação que eles vivem, ainda têm como skyline os prédios luxuosos onde vivem os artistas, os ricos e outras celebridades.

Mas isso vai muito além. Muito além mesmo. O que eu pude perceber é que nem sempre essas pessoas se dão conta da extremidade em que vivem. Algumas reconhecem aquele lugar como suas casas, seus lares, e daí o conflito existe quando se fala em remoções forçadas. Não adianta as autoridades passarem por cima dessas pessoas sem que haja danos gravíssimos à dignididade da pessoa.

Uma das histórias que eu ouvi hoje foi da Dona Giorgete, mulher, umbandista e negra, que articula suas opiniões de maneira tão clara e emocional que é preciso ser muito estúpido pra não perceber a gravidade das remoções. Ela contou sobre como em 2007 o governo do Rio quis tirar os moradores da comunidade de lá, para dar espaço à vila olímpica dos jogos pan-americanos. Eles resistiram e continuam lá, mas há outra ameaça: a expansão dos condomínios de luxo da Barra da Tijuca. E pode apostar que vão querer removê-los mais uma vez.

Enquanto acompanhava os grupos que coletavam o material de vídeo, comentava com a Priscila Néri (da Witness.org) sobre como esses vídeos que eles criarão podem ser poderosos e impactantes pra uma campanha sobre os despejos. A experiência de captar entrevistas em vídeo é muito interessante, pois além dos depoimentos, é possível mostrar a vida e o dia-a-dia da pessoa, do sujeito entrevistado. Além de compor a dramatização do vídeo, isso acaba por trazer para a audiência um pouco mais sobre quem é aquela pessoa afinal, o que ela faz, e porque não somos tão diferentes assim!

Nesse tocante, tem algumas coisas muito interessantes que eu percebi e comentei com algumas pessoas. A primeira de todas é perceber o quanto essas pessoas estão conectadas com o mundo. Embora a condição seja de miséria e humilhação, elas têm celulares, elas sabem do que acontece do mundo, e até um garotinho da comunidade chegou pra gente e contou até 20 em inglês, sem falar das outras frases que ele sabia falar pra comunicar com os estrangeiros que compunham o grupo. Fora isso, os nomes de negócios, empresas, cartazes, as músicas que eles ouvem no rádio, tudo remete ao mundo lá fora, à globalização, ao estrangeiro, à uma aldeia global (independente se isso seja bom ou ruim).

Um dos senhores com quem conversei, que mora no Canal do Anil há mais de 20 anos, me contou como via pela Internet as informações sobre despejos, notícias, e tudo mais: “A velocidade da internet não é boa, mas dá pra ver”, disse ele. E isso, meus caros, é genial! Eu acho genial pelo menos. E nem preciso mencionar que um dos membros do grupo comentou que ia postar as fotos que eles tiraram hoje no álbum do Orkut dele. Isso a gente já sabe que acontece mesmo, apesar de toda a classe média dizer que essa rede social já morreu. Humpf…

Ao mesmo tempo, e aqui vai um parêntesis de uma história que quero discutir mais detalhadamente depois, fico curioso a respeito de como algumas pessoas dessas comunidades e de outras comunidades do Rio e do Brasil afora lidam com minha figura, ali, junto com outros oficineiros (e essa interpretação na verdade veio dos oficineiros também), mas também junto dos “gringos” e deslocado da realidade deles. Já explico:

Mais uma vez me perguntaram se eu era brasileiro, ou se eu morava nos Estados Unidos, pois segundo algumas pessoas eu “falo que nem gringo”. OK, todo mundo sabe que eu sou no mínimo estranho, alguns me acham metido, e outros me acham um fake-baiano, mas fora do meu círculo de amigos, quando uma pessoa faz essa interpretação sobre mim eu fico sem jeito, sem saber o que falar, e refletindo sobre porque eles acham que eu não poderia estar naquele contexto?

Porque eu, que vim de Salvador, de um contexto que não é de riqueza nem de classe média, muito pelo contrário, não posso ser um jovem bem-sucedido e respeitado profissionalmente? Porque eu precisaria ser “meio-gringo” pra isso? Essa é só uma provocação porque eu acho que vou chegar numa discussão mais longa a respeito de como eu avalio a opinião das pessoas sobre meu jeito gringo de ser.

Enfim, resumindo tudo, e pra não tornar o texto grande demais: eu acho que temos de parar de pensar que os pobres são coitados, ao mesmo tempo em que temos de lutar pela dignidade e os direitos humanos e dar a todos ferramentas para essa luta. O jeito como as vítimas de remoções, e tantos outros casos de violações de direitos humanos que acontecem no dia-a-dia, são tratadas é ridiculamente canalha, e ser negligente diante disso é simplesmente inaceitável.

Acho que tá na hora da gente parar pra refletir sobre o que é realmente ser humano, e ver o que podemos fazer pra mudar o mundo. Hoje eu aprendi mais sobre essas vidas, e mesmo que eu não consiga mudar o mundo sozinho, elas me motivaram a nunca desistir de tentar mudá-lo.

No Rio, falando de video-ativismo…

Estou no Rio. Vim pra cá por conta de um workshop da Witness.org, uma organização internacional de direitos humanos que tem como foco filmar as violacões desses direitos, documentando, e usando isso como recurso para o trabalho de ativismo.

O workshop reune desde sexta-feira (22/07) até o dia 29/07 representantes de movimentos sociais do Rio de Janeiro, de ONGs, membros das pastorais e moradores de comunidades de baixa renda da cidade. O objetivo é claro: ensinar a essas pessoas como usar ferramentas de vídeo para documentar os despejos e remoções que estão acontecendo na cidade por causa da Copa 2014, e das Olimpíadas em 2016.

Qual minha participação nisso? Eu já conhecia o trabalho da Witness, mas foi somente no mês passado que recebi o convite para participar do workshop aqui no Rio. Conduzirei uma seção na quarta-feira sobre formas de distribuição do conteúdo com o objetivo de tentar traçar alguns caminhos que esses grupos podem seguir para divulgar seus vídeos e alcançar suas audiências/públicos de forma efetiva.

É um desafio bastante grande, e que pode dar frutos bem interessantes. O Rio tem sido alvo de atenção por conta da Copa e das Olimpíadas, mas muito pouco ainda se vê/sabe das famílias que estão sendo despejadas de suas casas/moradias para dar lugar aos empreendimentos dos eventos desportivos. Nas entrelinhas de toda essa festividade e clima de alegria, há muita gente que está sendo mal-tratada, humilhada e tendo todos seus direitos básicos violados de maneira descarada pelas autoridades.

Para além de usar vídeo, o que esse workshop e iniciativas similares demonstram é algo que já tenho visto e falado com algumas pessoas por muito tempo: a necessidade de movimentos sociais e os geeks/nerds/hackers se juntarem, traçando novas estratégias para ação política, ativismo e mudança social. Os movimentos sabem como o jogo político funciona, e são eles que levam porrada quando vão às ruas lutar pelos seus direitos. Os hackers/entusiastas de tecnologia, por sua vez, dominam novas técnicas de mobilização, mas que se ficarem somente na imaginação serão inúteis.

O que proponho é que ambos os grupos enxerguem as possibilidades que cada um tem diante do que o outro sabe, que se juntem, e façam coisas legais para mudança social. Se isso de fato acontecer, aí sim estaremos usando a web e o poder dos movimentos para coisas que fazem sentido. Mas pra isso cada lado dessa moeda precisa ser um pouco mais aberto ao que o outro tem a dizer.

No workshop de hoje eu vi isso: uma vontade imensa dessas pessoas de aprender, e usar o “novo” e “desconhecido” como uma ferramenta para mudar a realidade delas e trazer dignidade de volta aos cidadãos do Rio. Acho que estou começando a ver coisas interessantes surgindo por aí, e não sou de falar mas, parece que quem tá comendo bola somos nós, os geeks/nerds/hackers, que não enxergam esse desejo de mudar o mundo e à realidade à sua volta, ou o valor das ações presenciais e do contato físico.

Aos cariocas. Tava com saudades da cidade de vocês! :)

A very brief report of the Internet at Liberty 2010

This post should have been published last week, but I was very busy with preparations for the Election Day and the Ushahidi deployment I’m running with the journalist Paula Góes (Global Voices Online) to monitor the elections in Brazil and other tasks from my every-day-wonderful-job ;-)

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Moving to São Paulo

From now on, I’ll be living in “the largest and richest city in the southern hemisphere and Latin America”, the emerging, chaotic, controversial and fascinating Sao Paulo. I’ve been hesitating to publish this post for a few days, trying to find words to explain this sudden change in my life, but I realized I just need to be as brief as one could and very straightforward.

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Balance of the GV Summit 2010

In the past week I attended the Global Voices Citizen Media Summit 2010. It was the first time I took part in a GV Summit  (this was the 5th one) and the first time I had the chance to meet some people whom I talk to in a daily basis. Additionally, it was an opportunity to motivate and surround myself with people from around the world who fight for a better understanding of media, advocate for freedom of speech and use blogs to spread the voices of people that are often unheard, but not only that.

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